A Verdadeira História do Incêndio do Reichstag e da Ascensão Nazista ao Poder

Você sabe o que aconteceu na Alemanha em 27 de fevereiro de 1933, quando uma parte considerável do prédio parlamentar em Berlim, o Reichstag, pegou fogo devido a um incêndio criminoso?

Foi o boi de piranha político – um evento crítico quando Adolf Hitler jogou com o medo das pessoas e dos políticos para consolidar o seu poder tirânico, preparando o terreno para a ascensão da Alemanha nazista. Desde então, tornou-se uma poderosa metáfora política. Sempre que cidadãos e políticos se sentem ameaçados o “Incêndio do Reichstag” é referenciado como um sinal de advertência.

Esse fato histórico tornou-se uma espécie de taquigrafia política – mas a verdadeira história do evento é muito mais complicada do que as manchetes sugerem.

A primeira experiência da Alemanha com a democracia liberal nasceu da Constituição de Weimar de 1919, estabelecida após o fim da Primeira Guerra Mundial. Ela exigia um presidente eleito por voto direto, que nomearia um chanceler para apresentar leis aos membros do Reichstag (que também eram eleitos por voto popular). O presidente manteve o poder de demitir seu gabinete e o chanceler, dissolver um Reichstag ineficaz e, em casos de emergência nacional, invocar algo conhecido como Artigo 48, que dava ao presidente poderes ditatoriais e o direito de intervir diretamente no governo da Alemanha.

Na noite de 27 de fevereiro, por volta das 9h, os pedestres que estavam perto do Reichstag ouviram o som de vidro quebrando. Logo depois, as chamas irromperam do prédio. Os bombeiros levaram horas para conter o incêndio que destruiu a câmara de debates e a cúpula dourada do Reichstag, causando danos de mais de US$ 1 milhão de dólares. A polícia prendeu um trabalhador da construção civil no local, um holandês desempregado chamado Marinus van der Lubbe. O jovem foi encontrado do lado de fora do prédio com tochas em sua posse, ofegante e suando.

“Este é um sinal dado por Deus”, disse Hitler a von Papen quando chegou ao local. “Se este incêndio, como acredito, é obra dos comunistas, então devemos esmagar essa peste assassina com mão de ferro.”

Poucas horas depois, em 28 de fevereiro, Hindenburg invocou o Artigo 48 e o gabinete redigiu o “Decreto do Presidente do Reich para a Proteção do Povo e do Estado”. A lei aboliu a liberdade de expressão, reunião, privacidade e imprensa; escutas telefônicas legalizadas e interceptação de correspondência; e suspendeu a autonomia dos estados federados, como a Baviera. Naquela noite, cerca de 4.000 pessoas foram detidas, encarceradas e torturadas pela polícia. Embora o partido comunista tivesse vencido 17% das eleições do Reichstag em novembro de 1932 e o povo alemão tivesse eleito 81 deputados comunistas nas eleições de 5 de março, muitos foram detidos indefinidamente após o incêndio. Seus assentos vazios deixaram os Nacionais Socialistas livres para fazer o que quisessem.

“Por trás da controvérsia estava a questão de maior destaque da tomada do poder pelos nacionais-socialistas: a ditadura foi resultado de um crime político ou simplesmente um evento oportuno?”, escreveu o historiador Anson Rabinbach.

É uma questão que estudiosos e historiadores vêm debatendo desde o início do incêndio. Seus argumentos preenchem centenas de páginas e numerosos livros. Alguns denunciam as evidências do nazistas como fabricadas, enquanto outros se aprofundam em outros aspectos de menos importância.

Para o historiador Peter Black, consultor do Museu Memorial do Holocausto dos Estados Unidos, a teoria de um homem só como Van der Lubbe agindo sozinho parecia correta até 2013, quando uma nova pesquisa surgiu com o livro de Benjamin Hett: “Burning the Reichstag”. Hett escreveu que, dada a extensão do incêndio e a quantidade de tempo que seria necessária dentro do Reichstag para incendiá-lo, não havia como Van der Lubbe agir sozinho. Citando depoimentos de testemunhas que vieram a público após a queda da União Soviética, Hett argumentou que os comunistas não estavam envolvidos; em vez disso, disse Hett, o grupo de nazistas que investigou o incêndio e mais tarde discutiu suas causas com historiadores e encobriu o envolvimento nazista para evitar o processo de “crimes de guerra”.

Black não concorda totalmente com a avaliação de Hett, mas diz que agora está convencido de que a teoria de um homem só é falsa. “Eu diria que Van der Lubbe não poderia ter começado aquele incêndio sozinho, com base nas evidências que agora estão disponíveis”, diz ele. “Parece provável que os nazistas estivessem envolvidos. Mas você não tem ninguém que possa dizer: sim, eu vi os nazistas.”

Tendo ou não a ajuda dos nazistas, Van der Lubbe confessou o incêndio criminoso, foi considerado culpado e condenado à morte. Os outros quatro réus foram curiosamente absolvidos por “falta de provas”, mas o incêndio continuou a ser brandido como uma conspiração comunista.

Em 23 de março, o Reichstag aprovou a Lei de Habilitação, a peça legislativa parceira do Decreto de 28 de fevereiro para a Proteção do Povo e do Estado. A Lei de Habilitação atribuiu todo o poder legislativo a Hitler e seus ministros, garantindo assim sua capacidade de controlar o aparato político. Quando o presidente Hindenburg morreu em agosto de 1934, Hitler escreveu uma nova lei que unia os cargos de presidente e chanceler. Foi sancionado por um plebiscito nacional. E o resto é conhecido de todos.

Os nazistas realmente ajudaram a atear fogo? Van der Lubbe agiu sozinho? É quase impossível saber, já que “a maioria das pessoas que saberiam ou não sobreviveram à Segunda Guerra Mundial ou não quiseram falar sobre isso depois”, diz Black. O governo alemão concedeu perdão a Van der Lubbe em 2008, 75 anos depois de sua decapitação. E embora o incêndio do Reichstag tenha gerado décadas de mistério, uma coisa é certa: desempenhou um papel crítico na ascensão dos nazistas ao poder. O incêndio provou a influência do perigoso novo ditador da Alemanha – cuja visão de refazer a nação estava apenas começando.

É como disse certa vez o filósofo e escritor Olavo de Carvalho: “Qualquer ato de violência física, em política, é apenas propaganda, preparando jogadas de poder mais decisivas. Para saber quem o planejou e comandou, basta averiguar quem tirou proveito político dele nos dias que se seguiram. Esta regra é praticamente infalível.”

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